Quantas vezes passei por locais maravilhosos e não me
dei conta de suas existências...
Quantas vezes disse Bom Dia e não olhei os olhos a quem cumprimentava...
Quantas vezes as oportunidades bateram à minha porta e eu deixei de
aproveita-las, de lhes dar o devido valor, por estar preocupado com um amanhã
material, que poderia ou não se concretizar, esquecendo do agora, do olhar em
volta, do sentir o cheiro das coisas...
Do não perceber o perfume das flores ou o sabor dos vinhos...
Do ter prazer em olhar o brilho da lua refletindo o sol...
Da alegria do sorriso de uma criança - honesto, simples e verdadeiro - ao ganhar
uma pequena lembrança ou um doce ou uma palavra de amor e de carinho...
Dei-me conta do que estou perdendo por me preocupar tanto...
Do querer viver hoje um amanhã que não me pertence...
Dei-me conta de que preciso olhar e ver...
"Ver Vendo"...
... De tanto ver, a gente banaliza o olhar...
Vê não-vendo...
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver...
Parece fácil, mas não é...
O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade...
O campo visual da nossa rotina é como um vazio...
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta...
Se alguém lhe perguntar o que você vê no seu caminho, você não sabe...
De tanto ver, você não vê...
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio de seu
escritório...
Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro...
Dava-lhe um bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência...
Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer...
Como era ele?
Sua cara?
Sua voz?
Como se vestia?
Não fazia a mínima idéia...
Em 32 anos, nunca o viu...
Para ser notado, o porteiro teve que morrer...
Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser que
também ninguém desse por sua ausência...
O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem...
Mas há sempre o que ver...
Gente, coisas, bichos...
E vemos?
Não, não vemos...
Uma criança vê o que um adulto não vê...
Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo...
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê...
Há pai que nunca viu o próprio filho...
Marido que nunca viu a própria mulher (e desconhece os seus segredos e desejos),
isso existe aos montes...
Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos...
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença...